Não aprendi dizer adeus
A melancolia das constantes despedidas e os últimos abraços que deixamos para trás.
** This text is also available in english after the photos section. **
Nas últimas semanas, mergulhei intensamente na preparação do Jubilate para o verão que se aproxima. Neste momento, meu corpo carrega as marcas do sol, especialmente de short e camiseta, ao mesmo tempo que sinto dores nas costas e nas pernas. Minhas unhas estão quebradas e lascadas, as cutículas ressecadas e o cabelo, desgrenhado. Porém, o prazer de ver todas as tarefas executadas com empenho me enche o coração. Posso orgulhosamente afirmar que me graduei em limpeza de casco, polimento, esfoliação do deck e pintura antiderrapante. Uma agenda repleta de afazeres me afastou de escrever para você, mas finalmente estou de volta.
Me sinto energeticamente reabastecida. As últimas semanas em Barcelona foram marcadas por dias mornos (ainda não posso chamar de quentes), após um inverno gelado. Esta renovada energia também é fruto da expectativa pelo verão que nos aguarda; estamos a caminho da Sardenha. Na última temporada, exploramos apenas a parte sul da ilha, mas desta vez teremos a chance de desbravar o nordeste e ainda atravessar para a deslumbrante Costa Amalfitana, na península Itálica. Este verão promete ser emocionante, repleto de visitas e hóspedes a bordo.
A vida no mar proporciona experiências únicas, mas preciso confessar que deixar pessoas queridas para trás, sem saber se as reencontrarei, é um fardo pesado. Durante os seis meses que passamos em Barcelona, ganhei amigos preciosos que tornaram o inverno gelado muito mais ameno. A convivência social, um desafio constante para quem navega, se transforma em sofrimento ao construir uma comunidade temporária e ter que dizer adeus.
Lembro-me nitidamente da minha primeira despedida, em Gibraltar, em fevereiro de 2024, quando nos separamos da Manon e do Steven. Aqueles amigos adoráveis, também velejadores, estavam deixando a marina em que compartilhamos meses de convivência para dar início à temporada de verão. Abracei-os com força e, sem conseguir conter as lágrimas, corri para o quarto. Reitero: despedir-se sem saber quando se encontrará novamente é doloroso demais. Por sorte, ainda mantemos contato e já nos reencontramos duas vezes desde aquele dia.
Ao decidir deixar o Brasil, entregando-me completamente à vida no barco, enfrentei emoções semelhantes. Além de me desfazer de toda a minha casa num curto espaço de tempo, precisei dar meus últimos abraços e lidar com uma enxurrada de sentimentos. Se você, querido belo-horizontino, está lendo este texto e não recebeu seu abraço de despedida, peço desculpas e que compreenda a tumultuada tempestade de emoções que navegava em minha mente naquele momento.
Há tempos percebo que não lido bem com despedidas, e assim me vejo em um estilo de vida onde constantemente digo adeus. Religiosos ou místicos diriam que o universo me ensina, num curso forçado, a enfrentar essa realidade. Em minha humilde opinião, apenas escolhi um modo de vida repleto de desafios.
Deixando de lado as melancolias, Barcelona foi uma verdadeira escola de vida, onde compreendi a força da união entre os brasileiros que se encontram em terras estrangeiras, tornando a imigração uma experiência muito mais leve. Pela primeira vez, encarei uma sala de aula repleta de pessoas que não falavam a minha língua nativa, onde me impressionei com a incrível adaptabilidade do cérebro humano. Nesta cidade, conheci a doçura dos catalães e a sua alegria contagiante; qualquer motivo é uma razão para celebração, e cheguei a sentir como se estivesse em casa, em Belo Horizonte. Barcelona me ensinou a importância da arte nos grandes centros urbanos, tanto para a cultura quanto para a economia. Revelou também a vergonha que parte da população espanhola sente em relação à colonização da América do Sul e à escravidão, mensagem que é reforçada em museus. Foi aqui que avistei, pela primeira vez, uma obra de Caravaggio, de quem sou muito fã. Barcelona foi a primeira cidade europeia que realmente considerei para uma estadia prolongada, e quem sabe um dia eu volto.
Este texto é dedicado aos amigos queridos que coloriram os últimos seis meses: João, Gi, Cris, Plínio, Claudio, Guilherme, Daniel, Lisa, Andreas, Nerea, Lila, Alba, Felipe, Gabriel e Rafael.
Adiós, Barcelona. Que te vaya bien!





Barcelona Farewell
The melancholy of constant goodbyes and the last hugs we leave behind.
In the past few weeks, I have immersed myself in preparing Jubilate for the summer that is approaching. At this moment, my body bears the marks of the sun, especially the shorts and a T-shirt marks, while I feel aches in my back and legs. My nails are broken and chipped, my cuticles are dry, and my hair is tousled. However, the joy of seeing all the tasks completed with diligence fills my heart. I can proudly say that I have graduated in hull cleaning, polishing, deck scrubbing, and anti-slip painting. A busy schedule kept me from writing to you, but I am finally back.
I feel energetically recharged. The last few weeks in Barcelona have been marked by warm days (I can't yet call them hot), after a freezing winter. This renewed energy also comes from the excitement for the summer awaiting us; we are on our way to Sardinia. Last season, we only explored the southern part of the island, but this time we will have the opportunity to discover the northeast and even cross over to the stunning Amalfi Coast in Italy. This summer promises to be thrilling, filled with visits and guests aboard.
Life at sea offers unique experiences, but I must confess that leaving friends behind, not knowing if I will see them again, is a heavy burden. During the six months we spent in Barcelona, I made precious friends who made the freezing winter much more bearable. Social interaction, a constant challenge for sailors, turns into suffering when building a temporary community and having to say goodbye.
I clearly remember my first farewell, in Gibraltar, in February 2024, when we said goodbye to Manon and Steven. Those lovely friends, also sailors, were leaving the marina where we shared months of companionship to begin the summer season. I embraced them tightly and, unable to hold back my tears, ran to my cabin. I reiterate: saying goodbye without knowing when you will meet again is far too painful. Luckily, we still keep in touch and have already reunited twice since that day.
When I decided to leave Brazil and commit myself to life on the boat, I faced similar emotions. Besides having to sell my entire home in a short slot of time, I needed to give my last hugs and deal with a torrent of feelings.
For some time now, I have realised that I do not cope well with farewells, and thus I find myself in a lifestyle where I am constantly saying goodbye. Religious or mystical individuals might say that the universe is forcibly teaching me how to face this reality. In my humble opinion, I simply chose a way of life filled with challenges.
Putting aside the melancholies, Barcelona has been a true school of life, where I came to understand the strength of unity among Brazilians who find themselves in foreign lands, making immigration a much lighter experience. For the first time, I faced a classroom filled with people who did not speak my native language, where I was amazed by the incredible adaptability of the human brain. In this city, I experienced the warmth of the Catalans and their infectious joy; any reason is cause for celebration, and I felt as if I were at home in Belo Horizonte. Barcelona taught me the importance of art in large urban centres, both for culture and the economy. It also revealed the shame felt by part of the Spanish population regarding the colonisation of South America and slavery, a message reinforced in museums. It was here that I saw a Caravaggio painting for the first time, of whom I am quite a fan. Barcelona was the first major city in Europe I seriously considered for a longer stay, and perhaps one day I will return.
This text is dedicated to the dear friends who coloured the last six months: João, Gi, Cris, Plínio, Claudio, Guilherme, Daniel, Lisa, Andreas, Nerea, Lila, Alba, Felipe, Gabriel and Rafael.
Adiós, Barcelona. Que te vaya bien!



são duas da madrugada e eu tô chorando pq lembrei da gente dando um abracin de despedida. sodade!!! te ama, di verdade! seja filiiiiz!!! ✨✨✨
Bella, como eu quero te visitar!